Inocência Mata
(Universidade de Lisboa)
“(…) por que as nações celebram sua antiguidade,
não sua surpreendente juventude?”
Benedict Anderson1“(…) os nossos mitos são outros,
de nascimento e formação.”
Voz do narrador de Lueji
Uma das marcas mais intrigantes, diria até mais emblemáticas, das actuais literaturas africanas de língua portuguesa, e da angolana particularmente, é o larvar trabalho de desconstrução (temática, discursiva e ideológica) e simultânea reconstituição do discurso sobre o corpo da nação, a partir de identidades da margem e consequente desestabilização do “local da cultura” (eregido como) nacional pelo discurso (literário) anti-colonial. Tendo sido a literatura um dos veículos de afirmação nacional, o nacionalismo literário utilizara signos e símbolos, uns arbitrários embora decorrentes de um conhecimento empírico (como os elementos da Natureza), outros sugeridos da situação socioeconómica prevalecente (como o magaíça moçambicano, o contratado, o imigrante cabo-verdiano), para construir a ideia de um corpo uno e coeso, o núcleo simbólico nacional, em que a identificação se processava através da afectividade ideológica e não propriamente cultural, ou através de fragmentos, eventos e objectos que emergiam como metáforas do quotidiano. O célebre poema de Agostinho Neto, “O içar da bandeira”, por exemplo, um poema significativamente “dedicado aos Heróis do Povo Angolano”, é paradigmático dessa convergência identitária que se fez pela transfiguração antropomórfica do espaço em favor de um projecto libertário colectivo e da visão unitária do país. Essa visão fazia-se pela representação da relação de cumplicidade, de identificação e de fusão entre o Homem e a Terra2, assim como através da visão cosmorâmica do espaço pelos “poetas nacionalistas” da “geração da Mensagem” e pelos griots da cidade de Luanda.
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