Antonio Candido
Brasil
1.
O meu intuito é relatar alguns aspectos do que se poderia chamar experiência de época, relacionada à presença da cultura portuguesa na minha geração, nos meios em que vivi, mencionando primeiro o contacto por intermédio dos livros; depois, pela convivência com algumas pessoas. Ao fazê-lo, procurarei registrar não apenas o meu caso pessoal mas os de amigos, colegas, professores, familiares, conhecidos, usando uma espécie de amostragem certamente arbitrária e sem pretensão sistemática. No que tange aos livros, falarei da quadra da adolescência, época das leituras apaixonadas que formam a base da vida intelectual. Quanto às pessoas, aquelas com as quais tive contacto directo se situam na quadra da maturidade, quando já são mais raras as grandes aventuras da imaginação.
2.
Vejamos o primeiro caso. Na geração dos que nasceram no tempo da primeira guerra mundial, digamos entre 1910 e 1920, houve no Brasil uma presença atuante dos livros produzidos por escritores portugueses da chamada “geração de 1870″. Desde a segunda metade do século XIX até o tempo da minha mocidade era avassaladora a voga de Eça de Queirós e, menos, as de Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão. Hoje talvez nem sejam mais lidos aqui em escala apreciável, e naquele tempo já eram representantes do passado, pois o gosto por eles vinha de nossos pais. E a sua voga era ainda mais acentuada nas cidades do interior, onde as bibliotecas eram desatualizadas e as modas recentes custavam a chegar.
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