AIL - Associação Internacional de Lusitanistas

A leitura machadiana do olhar
 
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A leitura machadiana do olhar
Modos de ver as/das personagens

Beatriz Berrini
(PUC - SP)

Na nossa cultura, os olhos são vistos desde os gregos como o mais importante instrumento para o homem conhecer o que existe fora de si: permitem o contacto com o mundo exterior. Na avaliação de Platão, por exemplo, é “a vista o mais sutil dos órgãos do corpo”1. Ao mesmo tempo, quando se fecham a essa visão para fora e mergulham dentro da própria intimidade, podem fixar-se na contemplação do próprio mundo interior, ou procurar penetrar a consciência alheia com o olho físico; ou, ainda, perscrutar o que existe além do mundo visível, o metafísico, o sobrenatural. Como Gerd A. Borheim lembra, o olhar é tão importante para o conhecimento, que há uma profusão de modalidades do verbo ver em grego; e uma das particularidades mais notáveis é a vinculação que existe, na língua grega, entre o verbo ver e o ato do conhecimento. “O ver grego realiza a transmutação do ver físico para o ver metafísico”.E por tal razão pode-se dizer que “há uma história do ver que acompanha os marcos mais decisivos do evolver da cultura ocidental”2. Na verdade, avaliando a evolução através dos tempos, percebe-se que “se o ver grego, se deixa conduzir fundamentalmente pelo que lhe é exterior, a partir da Idade Média a perspectiva se inverte, e o predomínio termina trasladado para a interioridade”.

 
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