Maria Luíza Ritzel Remédios
PUC-RS
Segundo Roland Barthes,1 uma textualidade pronta e acabada, tal como se apresenta ao leitor, nunca se constrói no singular, ela é sempre plural, porque se desdobra em outros textos e porque na escrita de cada um encontra-se o escrever de muitos. Desse modo, para o teórico francês, ler um texto é perceber a inter-relação existente entre escrita e leituras; é identificar no texto de um autor sua particular leitura das linguagens do mundo. Considerando Almeida Faria um leitor especial do mundo e, particularmente, de sua nação e da identidade portuguesa, pretende-se evidenciar os indícios que demarcam a História de seu país na sua escrita, a partir das histórias que conta em cada livro que apontam para direções determinadas no estabelecimento de significações outras que não aquelas reveladas pela História oficial. Sua produção literária inicia-se, em 1962, com Rumor branco e desdobra-se até 1990 com O conquistador, abrangendo, pois, um período importante do universo português, marcado por “antes” da Revolução dos Cravos e pelo depois desse momento, atuando de forma decisiva na formação de uma consciência social.
Com Rumor branco (1962), Almeida Faria introduz nova e ousada técnica literária e nova linguagem na ficção portuguesa, adotando uma postura altamente irônica e crítica frente à realidade e abrindo caminho e horizontes para uma linguagem que se projeta para o futuro em que a arte será uma desobediência de conteúdos, de meios de expressão e de palavras.2 A novidade proposta por esse romancista não permanece apenas em seu primeiro livro, a ausência de personagens que se configuram apenas como “nomes” que rejeitam convenções e a preocupação em mostrar que essas personagens não podem ter, à época, voz audível, porque estão sufocadas pela situação repressiva em que se encontra o País, é constatada também em seus próximos livros que constituem a Tetralogia lusitana, composta pelos romances A paixão, Cortes, Lusitânia e Cavaleiro andante.
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