Leyla Perrone-Moisés
Universidade de São Paulo
Falando de Baudelaire, Walter Benjamin diz que «sua poesia paira no céu do Segundo Império como ‘um astro sem atmosfera’».1 A metáfora é de Nietzsche e, qualquer que fosse seu sentido no texto do filósofo, em Benjamin ela aponta a “desintegração da aura”, a perda de lugar e de função sofrida pelo poeta na sociedade burguesa da era industrial. Parece-me proveitoso indagar em que medida tal metáfora serviria para definir o poeta Cesário Verde.
A relação da poesia de Cesário Verde com a de Baudelaire está indiciada no próprio texto do poeta português, e tem sido pontualmente examinada pela crítica. Cesário estreou como um daqueles numerosos “baudelairianos” que proliferaram em vários países nos últimos anos do século XIX. Seus poemas explicitamente baudelairianos são poemas menores, em que a lição do mestre é reduzida a mera pose ou a metáforas literalizadas. A oscilação entre uma imagética já convencional e a ousadia laboriosa leva freqüentemente esses poemas à beira do ridículo
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