Maria da Glória Bordini
PUCRS
A presença da História numa poesia tão descarnada e insubstancial como a de A Pedra Nua1, publicada em 1973 por António Ramos Rosa, Prêmio da Casa da Imprensa, se apresenta de início como enigma, possibilidade tão remota que só teses de viés marxista poderiam cogitar, tais como as de Theodor Adorno, em Lírica e Sociedade, ou as de Fredric Jameson, em O Inconsciente Político. Para esses teóricos, a materialidade das produções simbólicas é pressuposto-chave, de modo que, mesmo diante de uma obra como a de Ramos Rosa, a que se pode atribuir a mesma posição de Archibald McLeash, de que “Um poema não deveria significar / Mas ser.”,2 sua condição de objeto cultural não pode ser negada, assim como sua inserção num contexto histórico.
Tanto Adorno quanto Jameson, cada um a seu modo, buscam encontrar a relação sempre evanescente entre literatura e sociedade, para além da teoria lukacsiana do reflexo estético, que advoga para a arte a capacidade de mostrar a totalidade objetiva do real, com suas contradições dialéticas, sem deformações ideológicas, ao conciliar o singular e o universal na categoria da particularidade, ou do tipo.3 Lukács, porém, não discute a poesia lírica, a partir do preconceito de que, sendo o gênero da expressão pessoal, estaria prejudicado pelo subjetivismo e pelo culto do eu típico da sociedade burguesa. Uma poesia como a de Ramos Rosa, vista por esse ângulo, seria uma colagem de impressões em fragmentos, arbitrária e seletiva, em que o social e o histórico não poderiam ter lugar.
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