(”Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3″)
Maria Theresa Abelha Alves
Universidade Estadual de Feira de Santana
De ti se servem, ó morte, inimiga nossa, para alcançar a alegria, tu, que és a mãe do infortúnio; adversária da glória, ao serviço da glória é que te colocam; de ti se servem, porta do Inferno, para entrar no Reino, para atingir a salvação.
Estas palavras, citadas de um documento cisterciense do século XIII, abrem, na condição de epígrafe, o romance de Mário Cláudio, Peregrinação de Barnabé das Índias, que, publicado cinco séculos após a aventura da descoberta do caminho marítimo para as Índias, retoma a lusíada façanha, dando-lhe outra feição. O fragmento em epígrafe, assim recontextualizado, aponta, através da manifesta polaridade, a multiplicação de rotas orientadoras dessa outra viagem, menos aventurosa que salvífica, e que se dissemina em individuais périplos que objetivam ou as Índias que estão fora, ou as que estão dentro de cada um. Esse documento de caráter religioso, em que glória e alegria se não lêem em consonância com Reino e salvação, e em que morte não é fim, mas passagem, conduz uma viagem poética feita de elementos heterogêneos: interface de culturas, textos, e ideologias.
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